segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A estética do fake

Nos dias que correm é praticamente impossível distinguir o que é real do que é filtro. A realidade está tão editada, tão polida e tão “naturalmente perfeita”, que o próprio "fake" já parece o novo real. A verdade é que, mesmo sem querer e sem nos apercebermos, todos participamos nisso de alguma maneira.

Eu próprio já tirei mil fotos até encontrar “a tal fotografia”, já fiz ajustes na luz, no brilho, na sombra para que parecesse espontânea. Também já usei aquele filtro que disfarça mas não denuncia. Em boa verdade, ninguém quer parecer falso, apenas queremos parecer bem.

No entanto, é curioso pensar como tudo isto se foi normalizando até aos dias de hoje. Há uns anos, retocar uma foto era sinónimo de vaidade. Hoje é apenas um hábito que naturalmente temos quando vamos olhar para as fotografias que tirámos. O escritor Walter Benjamin falava, na sua Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, da "perda da aura" como aquele “brilho” único que uma obra tem quando existe só uma vez. Penso que, também perdemos a aura do rosto, de alguma maneira. Já não há só uma versão de nós mesmos mas sim muitas. Há uma versão para os stories, às vezes várias até, já que muitas vezes fazemos questão de ir colocando vários planos de um mesmo espaço, uma outra para o feed e outra que fica guardada no rolo de câmara e nunca chega a ser publicada.

O escritor francês Roland Barthes, no seu livro Mitologias, dizia que as imagens criam “mitos”, significados que parecem naturais, mas que na verdade são construídos. E é exatamente isso que acontece nas redes sociais: o “natural” acaba por ser um mito digital. A pele imaculada, a luz dourada da "golden hour", o sorriso “acidental" mas que acabou por ser forçado, tudo quase milimetricamente pensado para parecer autêntico. É quase um paradoxo, quanto mais tentamos ser naturais, em mais artificiais nos tornamos.

O mais engraçado e paradoxal é que toda a gente sabe que é fake mas mesmo assim toda a gente acredita. Naturalmente, não gostamos de ser enganados e nem admitimos que isso conscientemente aconteça, no entanto, nas redes, deixamo-nos enganar para passarmos a acreditar que a vida dos outros é mais bonita do que a nossa. E, de certa forma, essa crença ao mesmo tempo que nos consola, faz-nos sonhar, mesmo que seja com algo impossível.

A estética do fake acabou por se tornar numa linguagem. É assim que comunicamos: através de pequenos truques visuais que mostram aquilo que queremos que os outros vejam. Acaba por não ser apenas vaidade, é a necessidade de pertença, de aprovação, de encaixar no padrão que o algoritmo define. Fingir deixou de ser mentira, passou a ser a forma como nos adaptamos à nova realidade.

Benjamin dizia que a reprodução tornava a arte mais acessível, mas também a tornava banal. Talvez o mesmo esteja a acontecer connosco. Banalizámos a beleza, ao mesmo tempo que perdemos a sua singularidade. Agora, ser bonito é parecer editado e ser editado é parecer real.

No fim de tudo, acho que o fake não é bem o inimigo. É apenas o espelho do tempo em que vivemos, um tempo rápido, visual e inseguro. É o reflexo de uma geração que quer ser vista, mas tem medo de se mostrar. Talvez o problema não seja o filtro, mas a pressa com que o usamos. Talvez o verdadeiro desafio seja olhar com mais calma, aceitar a luz que não favorece, o ângulo torto, o retrato imperfeito.

Porque é aí, no que escapa ao filtro, que ainda se sente um bocadinho de verdade. Um bocadinho de aura.