segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O silêncio que já não sabemos habitar

No outro dia, enquanto estava a ir para a faculdade de manhã, o autocarro ficou preso no trânsito, e eu, por algum motivo raro, esqueci-me dos fones. Cinco minutos depois já estava inquieta. O motor fazia um ruído surdo, uma criança chorava ao fundo, e os olhares de todos à minha volta fixavam-se em ecrãs iluminados. Todos pareciam ocupados, menos eu. Peguei no telemóvel por instinto, abri uma aplicação qualquer, fechei, voltei a abrir. Não havia nada de novo. Este silêncio e inatividade tornaram-se estranhos, estranhos ao ponto de eu me começar a sentir desconfortável, e então apercebi-me.

Já não sei estar parada.

Vivemos num tempo em que o tédio se tornou quase um escândalo. Se o dia está calmo demais, abrimos o Instagram ou o TikTok. Se esperarmos dois minutos numa fila, vamos logo dar scroll no feed. A ideia de não fazer nada parece intolerável como se o silêncio fosse uma falha de produtividade.

A lentidão é vista como um defeito, e o descanso como uma perda de tempo. O tédio, este antigo território de devaneio e criação, desaparece aos poucos, sendo substituído pela urgência do estímulo constante. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve este fenómeno como resultado de uma “hiperatividade positiva” que elimina qualquer espaço de contemplação: "Na sociedade do cansaço, o tempo livre é visto como um desperdício, algo a ser preenchido com mais atividades e compromissos". O sujeito contemporâneo está preso a uma lógica de desempenho constante, incapaz de simplesmente ser. Esta aceleração do tempo, afeta não só o ritmo das nossas ações, mas também a profundidade da nossa experiência onde tudo se torna breve, substituível e descartável.  

Mas o que é que acontece quando o tempo deixa de ser vivido e passa a ser apenas consumido?

Walter Benjamin, em A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, dizia que a modernidade dissolveu a aura, aquela presença única e irrepetível da experiência. A reprodutibilidade técnica democratizou o acesso à arte, mas também a banalizou: “O que se definha na era da reprodutibilidade técnica é a aura da obra de arte.” Hoje, essa perda da aura não se aplica apenas à arte, mas também à experiência do próprio tempo. No contexto atual, esta perda de “aura” parece estender-se à própria experiência humana, vivemos mais para registar do que para sentir. Fotografamos o pôr do sol, partilhamos nos stories o café da tarde, gravamos os risos dos nossos amigos numa saída à noite, e ao fazê-lo, perdemos o que nestes momentos havia de singular. Tudo se transforma em imagem, o presente é vivido para ser arquivado e a aura perde-se.

Pergunto-me o que seria de nós se voltássemos a permitir o tédio. Se voltássemos a olhar pela janela, sem música, sem notificações, sem urgência. Talvez, nesse silêncio, o tempo voltasse a expandir-se e a vida voltasse a ter espessura. Porque o tempo que passa não se guarda. Só se habita.