a minha mãe fez um teste de ADN e o resultado foi o seguinte:
- 72,0%
- 21,1%
- 6,9%
decidiu então ir até Sardenha.
a firmeza de um sítio tão bem identificado na sua maior fatia percentual, trouxe-lhe curiosidade.
após a viagem, partilhou algo comigo.
enquanto andava pelas ruas, não se sentia como uma turista. os rostos que passavam por ela, eram-lhe familiares. tentou explicar, mas nada do que dizia fazia justiça ao que tinha sentido, disse-me.
como é que um sítio onde nunca estivemos, possa ser tão conhecido?
hoje em dia sabemos que as células trazem memórias genéticas, predisposições físicas, doenças e tantas outras coisas, mas o que gostaria de constatar é a memória genética, não em termos físicos, mas sim, metafísicos.
pergunto-me, e se, uma memória celular de um mundo já com o seu significado fosse passado para um ser que habita ainda um mundo sem significado nenhum? claro que, uma vez nascido, este ser recebe o significado da cultura que o rodeia, mas para onde vai essa memória?
um exemplo com que me deparei é de um estudo feito com água. numa placa de Petri, com água em temperatura ambiente, é colocada uma fruta que fica durante 1 hora a marinar. removeram a fruta e congelaram a placa. aquando congelada, observaram que a água tinha formado a imagem da fruta que tinha sido pousada sobre ela. a água revelou ter memória. incrível, não é?
Saussure podia não ter ainda o conhecimento que hoje possuímos no campo da medicina, mas é de valorizar o seu esforço para fazer a ponte entre o que somos e o que nos tornamos consoante onde nascemos e quem nos cria. no entanto, o seu estudo não contempla a passagem de informação do metafísico, ao que chamo, surreal.
o surreal traz respostas a coisas que sentimos e não sabemos bem de onde vêm, mas que são tão reais como tudo o que conhecemos. o surreal vem com história milenar, com carga de dualidades. dualidades essas que um teste de ADN traz à luz. sítios dos quais temos afinidades e não sabemos explicar porquê. culturas das quais não experienciámos, mas que existiram algures na nossa linhagem. vermo-nos em rostos (des)conhecidos.
acredito que seja um dos ingredientes principais do nosso subconsciente, o surreal.
na minha interpretação, os traços tracejados no gráfico de Saussure, que ligam os campos de significante a significado, não são apenas a passagem de linguagem e costumes; são também uma espécie de código morse interrompido com alguma réstia de uma memória de um presente longínquo.