sexta-feira, 7 de novembro de 2025

a minha mãe fez um teste de ADN.

a minha mãe fez um teste de ADN e o resultado foi o seguinte:

  • Europa
    72,0%
    Europa do Sul
    50,6%
    Ibérica
    30,9%
    Sarda
    19,7%
    Norte da Europa e Europa Ocidental
    16,8%
    Irlandesa, Escocesa, e Galesa
    12,3%
    Finlandesa
    4,5%
    Europa Oriental
    4,6%
    Báltica
    4,6%
  • África
    21,1%
    Norte de África
    18,2%
    Norte-africana
    18,2%
    África Ocidental
    2,9%
    Nigeriana
    2,9%
  • Ásia
    6,9%
    Ásia Ocidental (Turquia/ Irão)
    6,9%
    Asiática ocidental   
    6,9%   

decidiu então ir até Sardenha. 
a firmeza de um sítio tão bem identificado na sua maior fatia percentual, trouxe-lhe curiosidade.
após a viagem, partilhou algo comigo. 
enquanto andava pelas ruas, não se sentia como uma turista. os rostos que passavam por ela, eram-lhe familiares. tentou explicar, mas nada do que dizia fazia justiça ao que tinha sentido, disse-me. 
como é que um sítio onde nunca estivemos, possa ser tão conhecido?

hoje em dia sabemos que as células trazem memórias genéticas, predisposições físicas, doenças e tantas outras coisas, mas o que gostaria de constatar é a memória genética, não em termos físicos, mas sim, metafísicos. 
pergunto-me, e se, uma memória celular de um mundo já com o seu significado fosse passado para um ser que habita ainda um mundo sem significado nenhum? claro que, uma vez nascido, este ser recebe o significado da cultura que o rodeia, mas para onde vai essa memória? 
um exemplo com que me deparei é de um estudo feito com água. numa placa de Petri, com água em temperatura ambiente, é colocada uma fruta que fica durante 1 hora a marinar. removeram a fruta e congelaram a placa. aquando congelada, observaram que a água tinha formado a imagem da fruta que tinha sido pousada sobre ela. a água revelou ter memória. incrível, não é? 

Saussure podia não ter ainda o conhecimento que hoje possuímos no campo da medicina, mas é de valorizar o seu esforço para fazer a ponte entre o que somos e o que nos tornamos consoante onde nascemos e quem nos cria. no entanto, o seu estudo não contempla a passagem de informação do metafísico, ao que chamo, surreal. 
o surreal traz respostas a coisas que sentimos e não sabemos bem de onde vêm, mas que são tão reais como tudo o que conhecemos. o surreal vem com história milenar, com carga de dualidades. dualidades essas que um teste de ADN traz à luz. sítios dos quais temos afinidades e não sabemos explicar porquê. culturas das quais não experienciámos, mas que existiram algures na nossa linhagem. vermo-nos em rostos (des)conhecidos. 
acredito que seja um dos ingredientes principais do nosso subconsciente, o surreal.

na minha interpretação, os traços tracejados no gráfico de Saussure, que ligam os campos de significante a significado, não são apenas a passagem de linguagem e costumes; são também uma espécie de código morse interrompido com alguma réstia de uma memória de um presente longínquo.