sábado, 8 de novembro de 2025

Algoritmo ou Hipnose?

Há algum tempo atrás, enquanto esperava, impacientemente, o autocarro, entrei no Instagram com a intenção de estar lá por uns cinco minutos. No entanto, um vídeo levou-me a outro e quando dei conta, já tinha passado quase uma hora. Estava entretido com vídeos de rotinas matinais perfeitas, pequeno-almoços estéticos, físicos extremamente escultóricos e viagens de sonho e, o que me causou estranheza, foi o meu repentino desejo de querer ter tudo aquilo. Queria ter aquela vida, aquela estética e aquele ritmo energético. 


Após aquele scroll interminável, lembrei-me da ideia de Indústria Cultural de Theodor Adorno e Max Horkheimer. Escreveram-na por volta de 1940, quando o rádio e o cinema eram as mídias do momento, mas, mesmo naquela época, avisaram sobre a instabilidade da cultura: estava a tornar-se um produto em massa, com a função de entreter e vender, e no final do dia, moldar o nosso pensamento. No momento, em que a cultura torna-se uma indústria, o poder crítico da mesma perde-se, porque em vez de nos fazer refletir sobre o mundo, ela distrai-nos. A cultura deixa de ser um espaço de criação para transformar-se num instrumento para nos manter calados, aliciados — e, claro, bons consumidores.


Mas, voltando ao presente, essa realidade é extremamente notória. Agora, o estúdio de cinema ou a estação de rádio já não são a fábrica – é o algoritmo. É ele que define o que vemos nas nossas telas, o que vai viralizar e o que vai desaparecer silenciosamente. A sua função não é fazer com que apenas assistamos os conteúdos, é que sintamos e sigamos um certo pensamento. 


Ainda no autocarro, após refletir sobre esse efeito, senti-me corrompido pelo mesmo. Ao deparar-me com as rotinas matinais incansáveis, comecei a duvidar do meu ritmo mais lento; Ao ver todas as imagens de corpos perfeitos, comecei a criticar mais o meu; Ao ver conteúdo semanal de viagens de sonho, surgiu-me culpa por não ter os meios de viajar mensalmente. 


Aqui surge a “Fascismação do Pensamento” de Adorno. Não é política, com marchas ou bandeiras, é algo mais silencioso. É a uniformidade do desejo, é uma multidão a pensar na mesma forma: a desejar o mesmo, a copiar gestos e frases, e, mesmo assim, a acharem-se livres. É irónico como, ainda assim, a indústria cultural atual cultiva autenticidade. No entanto, até a mesma tornou-se um produto — uma imagem cuidadosamente elaborada para se adequar às tendências do momento.


Não acho problemático o uso de redes sociais, até porque gosto de ouvir músicas novas, descobrir peças de arte e descontrair com vídeos engraçados. Acho que o problema começa quando não temos noção de quem escolhe o conteúdo que consumimos. Quando paramos de questionar, deixamos de ser espectadores e tornamo-nos parte da engrenagem.


Talvez esteja na hora de ver um filme menos conhecido, pesquisar durante mais tempo por um conteúdo mais específico ou ouvir uma música que não seja de uma playlist automática. Concluindo, é fácil e difícil ao mesmo tempo: lembrar que nem tudo o que viraliza é profundo e que pensar com a própria cabeça ainda é o ato mais revolucionário que podemos fazer.