quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A oposição do cinema face à alienação

            Como se tem feito notar nas aulas da unidade curricular Cultura Visual, a característica que separa uma vertente cultural de uma natural é a presença de arbitrariedade. Dentro do panorama da comunicação, por exemplo, um sorriso enquadra-se numa vertente natural, visto que essa é a resposta inata que a espécie humana dá, face a um determinado estímulo exterior (geralmente de valência positiva). Muitas das vezes, não só não pensamos antes de o fazer, como nem o consciencializamos. Aliás, quando temos de o fazer, essa consciência aparece de modo a contrariar tal puro ato. Acontece de tal forma na Europa, em África e em qualquer outro continente. 

Por outro lado, a  componente linguística a partir do qual comunicamos, é totalmente arbitrária. Não é intrínseca à raça humana, pois está ligada às características facultativas de cada um, aos costumes da zona onde estamos inseridos, à forma como fomos educados, e até porventura à religião que implementou muitos aspetos arraigados à forma como fomos criados. Para além disso, para uma determinada vertente ligada à linguagem ser considerada arbitrária, não basta exibi-la ou praticá-la, visto que tem também de ser incorporada de geração em geração. Desta forma, a arbitrariedade está diretamente relacionada com a cultura. 


Porém, pergunto-me: dentro do que vemos ao nosso redor, o que terá, nos dias de hoje, verdadeiramente uma origem natural?

Remetendo-me ao que podemos observar nos hábitos de uma sociedade urbana, nem o espaço que nos rodeia se encaixa numa vertente natural. Tudo foi arbitrariamente escolhido pela civilização que habita aquele espaço. Até elementos naturais como a relva, as árvores, e as plantas estão ali porque alguém quis que ali estivessem, o que os transforma em elementos reveladores dos traços da cultura humana. Vejamos o imponente pinhal de Leiria, onde até os vastos 11000 hectares de mato apenas se encontram ali porque o Rei D. Dinis assim o quis, e porque muita gente trabalhou para que ele se formasse. 

O desligar da nossa consciência natural e a perda da pureza a que o mundo outrora nos sujeitou, faz com que nos embrenhemos cada vez mais numa bolha de confortabilidade do qual não conseguimos escapar. A meu ver, o humano cai cada vez mais num estado de alienação.


Tenho o intuito de entrar na indústria cinematográfica mas confesso que estou com receio do que o seu futuro me reserva. A alienação que caracteriza esta geração e, ao que tudo indica, as que estão para vir está a mudar a forma como apreendemos a sétima arte, ou, pelo menos, o que anteriormente a definia. Isto porque a forma como consumíamos as obras deste setor artístico era uma das principais bases que sustentavam o conceito cinematográfico. 

De facto, com o aumento da influência dos streamings, o valor da ida ao grande ecrã foi diminuindo. Para que é que eu hei-de ir ao cinema quando posso ficar em casa, no sofá, debaixo de uma manta, sem gastar um cêntimo, pelo menos, na forma percecionada? No cinema estamos acompanhados por desconhecidos, não podemos meter na pausa… e se eu tiver de ir à casa de banho? Haverei eu de me sujeitar às viagens e a tudo isto apenas porque a qualidade de imagem e de som é melhor? 

A verdade é que, mais uma vez, a forma como apreendemos o filme é chave no que toca ao verdadeiro aproveitamento da experiência cinematográfica. Aquele grande ecrã e o som esmagador que o acompanha não nos dá alternativa se não mergulhar dentro da realidade ilusória que nos é apresentada. Mas, se nos seguirmos apenas pelo que nos aparenta, à primeira, ser mais confortável não estamos a assistir ao mundo artístico no seu modo mais puro e cru, estamos sim a sucumbirmos ao mero entretenimento cujo grande objetivo não é causar um fluxo de realidades e emoções. 

O entretenimento estimula-nos constantemente, sim, mas também nos deixa alheios face ao que eu considero que seja a verdade do mundo artístico: a tradução do que observamos num desdobramento das nossas profundezas. 

O crescendo desta vaga de entretenimento passa também muito pelo papel das redes sociais e do consumo que entra de forma esplendorosa na essência do que caracteriza a sociedade atual. Procuramos a personalidade no produto e não em nós próprios. Isto porque, como defendia Marx: “Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens”. 

Temos, então, mais dificuldade em ficarmos num determinado ponto à deriva do vento,  sem sabermos para onde estamos a ir. Fica mais desafiante encarar o que parece, à primeira vista, ter uma componente mais vazia, menos estimulante e, talvez, menos confortável. Talvez seja mais fácil lutar contra o abismo do que contemplar aquilo com que nos podemos defrontar caso observemos um vislumbre do fundo de nós próprios. 

Com isto, não quero de todo criticar quem o escolhe fazer, o meu intuito é apenas salientar as diferenças naqueles dois atos e as alterações que essa poderão causar na indústria cinematográfica. Afinal, o que me espera? O entretenimento no seu estado mais cru ou o cinema, no seu lado mais artístico?