Saussure dizia-nos que “a unidade linguística é um fenómeno duplo, resultante da aproximação de dois termos (...) psíquicos e unidos no nosso cérebro por meio da associação”. Um deles é a imagem acústica de uma coisa (não é necessário que seja sonoramente concreta, podendo ter apenas propriedades psíquicas ou gráficas) e um conceito. A imagem acústica torna-se no significante enquanto que o conceito torna-se no significado.
Quando chega ao mundo, a criança ainda não vê fronteiras vincadas entre o eu e o mundo. Durante o processo psicológico infantil que Margaret Mahler descreve como “separação-individuação”, a criança afasta-se gradualmente da condição de uma mera extensão da mãe e do que a rodeia, passando a desenvolver a sua própria identidade e a aprender a lidar com a angústia que essa separação pode causar. Os momentos e experiências que marcam essa passagem moldam a relação entre significados e significantes: um laço que não nasce pronto, mas que é construído ao longo do tempo e fortemente influenciado pelo ambiente em que crescemos.
Por exemplo, em zonas tropicais, há uma maior propensão para haver muitíssimas palavras capazes de descrever a cor verde, pois os seus habitantes retiram mais utilidade dessa diferenciação e porque experienciam e absorvem com mais frequência esse caráter cromático. Desta forma, pode-se dizer que o significado de uma palavra não está apenas incutida no significante que lhe corresponde, mas também nas relações que estabelece tanto com as outras palavras usadas previamente na frase (sintagma), como com o ambiente físico, cultural e pragmático que rodeia quem a utiliza. Voltando a citar Saussure: “o valor linguístico é relacional”.
Recordando o raciocínio prévio, à medida que a identidade se vai desenvolvendo, a atribuição de significados vai-se tornando mais nítida e sólida. Vamo-nos fundindo com os nossos pensamentos e com a forma como o nosso mundo funciona. Contudo, corremos o risco de cair no outro lado da rede e, ao invés de interpretar o que vemos como o que somos, como outrora fizemos, interpretarmos o que pensamos como o que somos. Os nossos significados poderão tornar-se tão rígidos que poderemo-nos tornar num mero prolongamento do que estamos habituados a fazer e a pensar. Assim, qualquer coisa que desafie essa lógica desafia também a nossa identidade.
Considero que esta é uma das principais razões pelas quais existe um número significativo de pessoas que rejeita a mistura de culturas num mesmo espaço geográfico. No entanto, se fundir a minha identidade com as minhas convicções e com aquilo que considero ser o significado das coisas, então já não os posso relacionar com conhecimento, pois conhecer implica sempre dois elementos distintos: o sujeito que conhece e, exterior a ele, o objeto que é descoberto.
A estagnação dos significados que fomos esculpindo, pouco a pouco, pode também sucumbir na resistência que o ser humano, muitas vezes, manifesta perante aquilo que é novo ou revolucionário. Basta lembrarmo-nos das duras críticas que quase todas as vanguardas enfrentaram no instante em que ousaram surgir.
Mas a Terra nunca pára de girar e, a meu ver, não nos podemos satisfazer ou dar como concreto todas as particularidades que sustentam o nosso pequeno mundo.
As métopas do Partenon eram placas de mármore esculpidas em alto-relevo que permaneceram, durante séculos, no topo da fachada do templo grego. Gravadas nessas placas, estavam representações de episódios mitológicos, como grandes batalhas entre deuses e gigantes. Embora se soubesse da sua existência e da sua localização, não estavam dispostas de modo a facilitar a observação pelo povo comum. Pela altura a que se encontravam e pelas estruturas que, dependendo do ângulo de visão, parcialmente se sobrepunham, o observador tinha de se afastar do templo para tentar vê-las a partir de uma perspetiva favorável. Porém, ao fazê-lo, as figuras tornavam-se tão distantes que os seus detalhes acabavam por se desvanecer.
Dito isto, as esculturas eram tão grandiosas e idealizadas que só os deuses as conseguiam contemplar, a partir do seu ponto de vista superior. Aliás, possuíam características que associamos às figuras ontológicas: o povo sabe que elas existem, mas não as consegue ver. No entanto, sabe onde elas estão: no topo, acima de todos.
O Judaísmo, por exemplo, que é uma das religiões monoteístas mais antigas ainda praticadas, proíbe as representações de Deus por várias razões, nomeadamente, por considerarem que representá-Lo seria reduzir o Infinito ao finito. A representação não é , portanto, digna do divino.
Porém, novas variações dessas religiões foram sendo esculpidas pelo tempo. O Novo Testamento veio a separar a tradição judaica da fé cristã e passou a introduzir a aceitação de representações religiosas. O sagrado deixava, assim, de precisar ser encoberto como as Métopas do Partenon, que, aliás, se encontram hoje à vista de todos, nomeadamente no Museu Britânico, em Londres. O significado por detrás da representação transfigurou-se, alterando a forma como milhões de pessoas apreendem o divino.
Por outro lado, tudo o que era julgado profano ou impuro permanecia igualmente fora do domínio da representação, mas pela razão contrária. A própria imagem era incapaz de albergar aquilo que se desviava da ordem do sagrado e o profano era considerado indigno da esfera artística.
Porém, as revoluções artísticas do século XX viriam a transformar radicalmente o horizonte da representação. Aquilo que antes era considerado “feio” torna-se tema legítimo, chegando-se ao ponto de se considerar uma das obras mais influentes e disruptivas desse século, precisamente, um urinol (Fountain (1917), Marcel Duchamp).
Em última análise, tudo isto revela que os significados que atribuímos aos significantes não são estruturas fixas, mas formas vivas, moldadas maioritariamente por contextos históricos e culturais. Do mesmo modo que a criança aprende a distinguir-se do mundo para depois o reinterpretar, também nós, estamos condenados a reconstruir incessantemente aquilo que pensamos saber. O que ontem era sagrado e intocável poderá, hoje, ser representado. O que antes era profano ou indigno pode tornar-se objeto de contemplação estética, aliás, aquilo que outrora rejeitámos como impuro pode ascender ao estatuto de obra pioneira. Assim, compreender a linguagem, a arte e a cultura é reconhecer que não existe significado definitivo. Talvez seja precisamente nesse espaço móvel, onde tudo pode ser refeito, que reside a verdadeira liberdade humana: a capacidade de reimaginar o que vemos, o que dizemos e, em última instância, o que somos.
Contudo, não desejo cair nas ideologias de Nietzsche, e defender, por exemplo, que o mal não existe, visto que é uma invenção da moral que apenas serve para domesticar os instintos e a vitalidade humana. Porém, concordo parcialmente num ponto: devemos libertar-nos, muitas vezes, da moral tradicional e criar novos valores. Mas acho que certos significados, por exemplo, o que está geralmente por detrás da distinção entre o bem e o mal devem ser preservados.