terça-feira, 9 de dezembro de 2025

É a fotografia arte?

 n. 17079 

Referente a outubro de 2025 


A controvérsia da fotografia e da pintura que Benjamin descreve como confusa e até irrelevante aos dias de hoje, no texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”- 1955,  ganha outra profundidade quando lida à luz das reflexões de Susan Sontag.

Benjamin explica que, com a reprodutibilidade técnica, a arte perdeu o seu vínculo com o culto e, por isso, deixou de parecer autónoma. A fotografia não só surge nesse momento como força revolucionária, como obriga a redefinir o próprio conceito de arte.

Mas os contemporâneos da época, diz Benjamin, não chegaram a aperceber-se dessa transformação: discutiam se a fotografia era ou não arte, sem reconhecer que a sua simples existência já alterava a natureza da arte em si.


Este é um dos temas que Susan Sontag aprofunda no seu livro “On photography” publicado em 1977. Para ela, a fotografia altera radicalmente a forma como experienciamos o mundo, e não apenas a forma como fazemos imagens. Quando Sontag descreve a fotografia como uma forma de apropriação, como um modo de transformar o mundo em coleções de aparências, está a afirmar que a fotografia se torna um gesto cultural dominante. 

No século XIX, no início do turismo, introduz-se a banalização de criar imagens. Para o turista, tirar fotografias torna-se uma forma de confirmar a própria experiência, quase como se o lugar só existisse verdadeiramente quando é transformado em imagem. Esta nova vulgarização das fotografias mostram a mudança profunda de que Benjamin já falava: a imagem deixou de ter aura porque se tornou incessantemente multiplicável, consumida e produzida num fluxo ininterrupto.


Benjamin refere que a sociedade não percebeu a refuncionalização da arte; Sontag mostra precisamente o que essa refuncionalização se tornou. A fotografia deixa de ser uma arte no sentido tradicional e transforma-se num modo de relação, numa forma de consumo e até de poder. A imagem fotográfica, especialmente num mundo saturado por aparelhos portáteis, assume uma função social diferente daquela que a arte tinha antes da fotografia. 


Isto confirma retroativamente a ideia de Benjamin: a fotografia não só questiona o estatuto artístico das imagens, como altera o papel da arte na cultura.


No século XXI, esta questão torna-se ainda mais visível com as redes sociais. A fotografia, democratizada ao extremo, não é apenas prática estética; é linguagem quotidiana. Milhões de imagens são produzidas sem intenção artística, apenas para circular — Sontag antecipou exatamente este fenómeno ao falar da compulsão de fotografar como reflexo de uma sociedade que vive através de imagens. A arte fotográfica, por sua vez, tenta distinguir-se desse oceano de banalidade, procurando legitimação em museus, galerias e discursos especializados. Tal como no século XIX se perguntava se a fotografia era arte, hoje pergunta-se como pode a fotografia ser arte num mundo onde todos fotografam tudo.  


E no meio disto tudo, a fotografia enquanto arte continua a procurar o seu lugar. Penso muitas vezes que, para ser reconhecida enquanto linguagem artística, a fotografia hoje precisa de se afastar dessa banalidade massificada. Precisa de recuperar uma intenção, uma reflexão, um posicionamento ético ou estético. Aliás, a maioria do trabalho que vemos ser reconhecido enquanto arte fotográfica, são projetos com fortes intenções e reflexões emocionais.

Acredito que a arte fotográfica é aquela que resiste ao ritmo agitado das redes sociais e da produção contínua, aquela que obriga a olhar, a demorar, a interpretar — exatamente o contrário do que Sontag descreve como uso banal e mecânico da câmara.

O mais interessante é que a procura por reconhecimento artístico não é apenas institucional, é também interior a quem fotografa. 

Eu, enquanto fotógrafa e estudante de fotografia (há 4 anos) sinto a necessidade de justificar o meu trabalho neste mundo onde todos fotografam o tempo todo. Há quase um desejo de distinguir a imagem pensada da imagem automática, de mostrar que a fotografia artística não é apenas um clique, mas uma construção. 

É aqui que Sontag continua a ser relevante: ela antecipa que, quanto mais banal for o ato de fotografar, mais difícil será perceber a fotografia enquanto forma de arte, mas também mais urgente se torna defendê-la como tal.

Pessoalmente, sinto que vivemos hoje uma espécie de paradoxo. Nunca se fotografou tanto, mas nunca foi tão difícil que uma fotografia tivesse impacto real. Nunca foi tão simples tirar uma imagem, mas nunca foi tão desafiador que ela significasse alguma coisa. Ao mesmo tempo, é justamente neste excesso que alguns fotógrafos conseguem criar trabalhos poderosos: resistindo à pressa, recusando a repetição, pensando o que querem dizer.

E talvez a arte da fotografia no século XXI passe exatamente por isso — por reencontrar profundidade num mundo superficial, por recuperar intenção num mundo instantâneo, e por recuperar significado num mundo saturado de imagens.