Regularmente esquecemo-nos dos fatores que influenciam a forma como consumimos imagens. A cultura exerce um peso determinante nesse processo, emergindo de forma indissociável do conteúdo visual; no entanto, é comum que o papel do género passe despercebido. Pode existir a percepção de que consumimos cultura de forma neutra, como se as nossas características individuais não afetassem a leitura das imagens e dos discursos visuais. Contudo, coloca-se a questão: será essa neutralidade verdadeiramente genuína?
Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, demonstra que o masculino se constitui historicamente como sujeito universal, enquanto o feminino é definido como o “Outro” (Beauvoir, 1949). Esta assimetria funda uma lógica simbólica na qual o homem ocupa a posição de medida neutra da humanidade, ao passo que a mulher surge como desvio, particularidade ou diferença. Assim, sempre que consumimos cultura visual como se esta fosse neutra ou universal, estamos, frequentemente, a fazê-lo através de um olhar masculinizado, que se apresenta como natural precisamente porque se tornou invisível.
John Berger, em Modos de Ver, aprofunda esta crítica ao evidenciar que o ato de ver não é espontâneo nem inocente, mas socialmente construído. Ao analisar a tradição da pintura europeia e da cultura visual ocidental, Berger demonstra como o corpo feminino é historicamente representado para ser visto, enquanto o masculino ocupa a posição daquele que vê (Berger, 1972). A célebre distinção que o autor estabelece, segundo a qual os homens são representados como agentes e as mulheres como aparências, revela uma estrutura visual que organiza os papeis de género. Aplicada à teoria de género, esta lógica permite compreender como a cultura visual reforça a divisão entre sujeito e objeto, consolidando o masculino como olhar normativo e o feminino como superfície de projeção simbólica.
Esta construção do olhar pode ser pensada, ainda, à luz da obra de Michel Foucault. Para o autor, os corpos e as identidades não preexistem aos discursos que os nomeiam e regulam, mas são produzidos no interior de relações de saber-poder (Foucault, 1988). A cultura visual, enquanto sistema de signos e práticas de visibilidade, participa ativamente na produção dessas normas, definindo quais corpos são reconhecidos como legítimos, desejáveis ou inteligíveis. O olhar, longe de ser neutro, é disciplinado por regimes de verdade que determinam o que pode ser visto e como deve ser interpretado. A invisibilidade do masculino enquanto norma é, assim, um efeito direto do poder que o sustenta.
Judith Butler radicaliza esta perspetiva ao propor que o género não é uma essência natural, mas uma construção performativa, produzida através da repetição de atos regulados socialmente (Butler, 1990). As imagens e representações culturais desempenham um papel central nesse processo, uma vez que oferecem modelos visuais que orientam e normalizam as performances de género. A cultura visual não apenas reflete o género, mas contribui para a sua constante produção, tornando certas expressões legíveis e outras abjetas ou marginalizadas. Consumir imagens sem questionar os seus códigos é, portanto, reiterar normas que se apresentam como naturais, mas que são historicamente construídas.
Deste modo, a articulação entre Beauvoir, Berger, Foucault e Butler permite compreender a cultura visual como um campo de disputa simbólica, onde o masculino se disfarça de universal, o olhar opera como tecnologia de poder e o género se consolida através da repetição visual e discursiva. Questionar a neutralidade do olhar torna-se, assim, um gesto crítico fundamental para desestabilizar as hierarquias de género inscritas nas imagens e para repensar a forma como vemos, e somos ensinados a ver o mundo.