Quando ando de comboio, ou de metro no meu dia a dia, eu sempre fico a observar as pessoas à minha volta. Há quem fica a ler, quem fala ao telemóvel ou quem fica simplesmente a olhar pela janela. Sem perceber, eu começo sempre a imaginar a vida daquelas pessoas, quem são, para onde vão e quão diferente será as nossas vidas. Este meu olhar é automático, onde classifico e interpreto tudo à minha volta.
Enquanto pensava nisso, lembrei-me de Las Meninas, de Velázquez, um quadro que eu pessoalmente gosto imenso e que falámos em aula. No quadro, cada olhar cria "camadas" diferentes, quem pinta, quem é pintado, quem observa, até os espelhos que refletem outras perspectivas. No comboio senti algo parecido ao que acontece neste quadro, eu observava, mas também fazia parte daquele espaço. Cada gesto, cada detalhe que percebia estava carregado de interpretações minhas, de expectativas que eu nem sempre controlava. Era como se eu própria fosse uma peça dentro da cena que olhava.
Neste meu contexto do dia a dia, também consigo relacionar com Foucault, em que fala da “prosa do mundo” representar, classificar, falar e trocar, e percebi que é exatamente isso que acontece todos os dias, mesmo nas situações mais banais. Ao observar as pessoas, estava a classificar, a imaginar histórias, a dar sentido ao que via e, ao mesmo tempo, a perceber os limites do meu próprio olhar. Nunca nestes momentos do meu dia a dia irei conseguir conhecer alguém por completo.