Desde os inícios da infância que os brinquedos funcionam como um meio de aprendizagem. Quer seja a nível pessoal ou social, as crianças aprendem lições e comportamentos relativos aos diversos aspectos da vida através das várias brincadeiras que os seus brinquedos lhes proporcionam. Muito antes de aprenderem a nomear ou descrever conceitos, elas já compreendem e absorvem as suas bases, que ficam com elas para o resto da vida. Mas e se essas “bases” conceituais que absorvem não fossem justas ou iguais? E se estas primeiras lições aprendidas num âmbito lúdico enraizassem nas suas mentes que as escolhas oferecidas pelo mundo são binárias e fixas? E se para uns tivessem reservadas a “ação”, a “coragem” e a liderança, e para outros o cuidado pessoal, o acariciamento e a domesticidade?
Este conceito é exatamente o que é transmitido pela “binarização” dos brinquedos, uma divisão precoce do mundo que irá moldar as visões das crianças e condicionar os seus desejos, vontades e oportunidades.
Ao passear por um supermercado ou qualquer loja que venda brinquedos, a primeira coisa que salta logo à vista é a divisão clara do espaço, e passar de um para outro faz parecer que se está a mudar de mundo. Enquanto um espaço é excessivamente cor de rosa, o outro destaca-se pelas suas cores vivas e violentas. O corredor “para as meninas” está lotado de brinquedos que representem a imagem de o que uma mulher deve ser: brinquedos relativos à hospitalidade, à maternidade (com bonecos que simulam bebés e todos os cuidados que requerem), extensões dessa mesma maternidade (com brinquedos relativos à educação ou cuidados), a esfera doméstica com todos os carrinhos de compras e kits de limpeza, e finalmente, os cuidados à aparência, com kits de maquilhagem ou embelezamento. Estes brinquedos transmitem todos uma imagem do que as meninas têm de ser, desenham os limites do que as mulheres podem ser, moldando já os inícios do papel submisso que é esperado delas. Já o corredor oposto, o “dos meninos”, contém os carros, os bonecos de ação, as armas, os dinossauros, os bombeiros, os polícias, os pilotos, os cientistas, os médicos e muitos outros; tudo representado com cores variadas e vivas (menos o cor de rosa). Neste caso a imagem que se cria é uma imagem de liberdade e sonhos, molda o inconsciente dos meninos de forma a que sintam que são destinados a grandes papéis de liderança ou glória, de forma a que sintam que possam ser qualquer coisa, de forma a que sejam de facto crianças, e não “mães em treino”.
Esta distinção evidente entre o que é “feminino” e “masculino” na esfera infantil cria e reforça conceitos baseados em estereótipos que são ilógicos, completamente desatualizados e profundamente errados. Se o objetivo for de criar um mundo onde cada um pode seguir o caminho que deseja sem prejuízos, julgamentos e alienação, as primeiras mudanças a fazer são ao nível dos brinquedos, pois estes mesmos e as mensagens que transmitem moldam o inconsciente das crianças.