segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

John Berger e os Modos de Ver a Atualidade

    Quando pensamos em estruturas de poder, é comum visualizarmos o homem no topo dessa hierarquia. John Berger, no livro Modos de Ver, afirma que “a presença do homem depende da promessa de poder que ele encarna”. O papel do homem e da mulher continua a ser radicalmente distinto e a forma como consumimos imagens, sobretudo no contexto digital, pode acentuar essa diferença, contribuindo para a perpetuação das desigualdades existentes entre os sexos. No capítulo três de Modos de Ver, Berger debruça-se sobre o nu, numa análise que se mantém surpreendentemente atual.

As redes sociais são utilizadas para múltiplos fins, mas o corpo da mulher continua, em grande parte, a ser tratado como um produto, algo que pode ser exibido, avaliado e consumido. Muitos dos problemas historicamente vividos pelas mulheres foram transpostos para a internet, não por escolha consciente, mas porque a internet funciona simultaneamente como loja, revista, jornal, mercado e espaço de entretenimento. Antes da sua existência, as revistas desempenhavam um papel central na construção de ideais, na circulação de valores e na definição de padrões de beleza. Berger explica que a mulher “é levada a considerar a escrutinadora e a escrutinada que traz dentro de si como duas partes constitutivas, embora sempre distintas, da sua identidade enquanto mulher”, acrescentando que “tem de escrutinar tudo o que é e tudo o que faz, porque a sua aparência diante dos outros, e essencialmente diante dos homens, é de importância crucial para o que será naturalmente entendido como o êxito que ela alcança na vida.”. O sentimento de ser ela própria é, assim, substituído pela perceção do que o outro vê nela. O que se observa hoje nas redes sociais não se distancia destas afirmações. 

Existem milhares de páginas online de mulheres influencers cujo trabalho consiste na construção, preservação e divulgação da sua própria imagem. O objetivo passa por partilhar o quotidiano com uma aparente naturalidade, como se estivessem constantemente sob observação. Tal como Berger escreve, “o examinador que ela tem em si é masculino; o examinado é feminino. Deste modo, ela transforma-se num objeto — e mais precisamente num objeto do olhar: uma vista”. A mulher passa, assim, a olhar-se a si própria como imagem, antecipando o olhar externo. 

Tal como na pintura, onde o corpo feminino nu era retratado de forma objetiva e intencional para ser observado, também hoje subsiste uma lógica semelhante. Nos retratos clássicos analisados por Berger, a mulher era representada sem expressão emocional, com o propósito exclusivo de ser vista. É certo que, na contemporaneidade, a noção de passividade sofreu alterações. A mulher que se expõe por iniciativa própria parece assumir um papel mais ativo e decisivo. Contudo, essa aparente autonomia não elimina completamente as estruturas do olhar. A sugestão de passividade pode agora surgir como uma escolha estética ou estratégica, mas a submissão permanece muitas vezes inscrita no olhar de quem observa. Apesar de homens e mulheres se exporem hoje de forma semelhante no espaço digital, as mulheres continuam a encontrar-se numa posição de maior vulnerabilidade. Quanto maior a sua visibilidade, medida, por exemplo, pelo número de seguidores, maior a probabilidade de serem sexualizadas, frequentemente por homens que consomem esse conteúdo com esse objetivo específico. Como Berger refere, “tudo é dirigido a ele. Tudo deve aparecer como sendo o resultado da sua presença. Foi para ele que as figuras assumiram a sua nudez. Mas ele é, por definição, um estranho — sempre ainda vestido.”. 

Nos conteúdos associados ao chamado lifestyle, onde se partilha o que se come, como se vive, onde se viaja ou como se exercita, a imagem do próprio corpo torna-se inevitável. A identidade visual da pessoa é o produto central, reforçando a ideia de que o corpo continua a ser o principal meio de comunicação e validação. Os que se tornam alvos mais frequentes são, muitas vezes, aqueles que escolhem expor o corpo num espaço onde os limites são difusos e difíceis de controlar. Apesar de a internet permitir maior liberdade na exposição do corpo sem que esta seja automaticamente sexualizada, essa associação nunca desapareceu por completo do imaginário coletivo. Nas redes sociais coexistem discursos contraditórios: enquanto alguns defendem a liberdade e a autonomia do corpo, outros recorrem a valores tradicionais de repressão, misoginia e machismo. Ainda que não exista uma ligação direta entre esses discursos e a produção de imagens, o olhar de quem vê e de quem é visto, sobretudo num espaço saturado de imagens, continua a ser inevitavelmente influenciado por estas estruturas culturais profundas. 

A análise de John Berger sobre o nu não se limita ao contexto histórico da pintura europeia, mas revela-se uma ferramenta essencial para compreender a cultura visual contemporânea. As redes sociais, apesar de se apresentarem como espaços de liberdade e auto-expressão, reproduzem muitas das dinâmicas de poder identificadas por Berger: o corpo feminino continua a ser observado, avaliado e consumido sob um olhar que raramente é neutro. O que mudou não foi a estrutura do olhar, mas a sua multiplicação e interiorização. Ao aplicar Modos de Ver ao contexto digital, torna-se evidente que a questão central não é a nudez em si, mas quem olha, a partir de que posição, e com que poder. Assim, Berger permanece atual não apenas como crítico de imagens do passado, mas como guia indispensável para ler criticamente o presente visual que nos rodeia.