segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Nosso Grande, Invisível Palco

Numa sociedade baseada em conceitos e gostos Iluministas postos em prática é de fácil compreensão a maneira como os sistemas aos quais a nossas vidas são submetidas correspondem a moldes regulares de perfeição em massa. Esta "correção" da natureza trata-se da imposição de uma regra arbitrária a um conjunto diversificado de pessoas, que, de alguma, adota a mesma como se fosse a sua própria essência.  No entanto, torna-se fascinante a análise de como estas mesmas populações, que são as nossas, encaram esta arbitrariedade e exercem os seus "papéis" intuitivamente, sem perceberem que a sua vida se trata de um conjunto de atos performativos.

 Quando procedemos a vestir um fato para o trabalho, usamos uma máscara invisível. Um blazer azul ou preto, uma camisa branca e uma gravata lisa, o exemplo de vestuário adequado ao profissionalismo é profundamente arbitrário. Poderia ser, se se tivesse convencionado desse modo, o símbolo profissional um fato de Carnaval de ananás. Porém, é de fácil compreensão a maneira como categorizamos o fato de trabalho como uma parte mais natural de nós do que um fato de carnaval. A construção identitária contemporânea sugere que existe um sujeito, e que este poderá revelar o seu espírito verdadeiro através das mais diversas construções sociais existentes: o seu género, o partido político com que simpatiza, a nação à qual pertence, a família nuclear com quem vive. Existimos a declarar-nos, a atuar perante outros atores e a mudar a realidade somente através de afirmações. É este cariz transformador que poderá criar, por exemplo, a arte, no sentido que a mesma se torna uma expressão criativa como se "intermédia" do mundo dos "númenos" (como diria Kant), e o mundo das normas arbitrárias (o que não unifica ou explica esta relação, apenas se debruça sobre a mesma). Os mecanismos artísticos assentam-se na complexidade de existir enquanto ser que não consegue reduzir a sua existência a uma fórmula rígida e universalmente aplicável. 

  É de discussão atual o lugar das performances de Drag na sociedade. O género, de forma geral, é uma tema de imensa pertinência contemporânea, uma vez que interroga a nossa parte mais íntima e mais "pré-determinada". Dada por garantida, pelo menos, pelas pessoas cisgénero, que continuam a identificar-se com o género que lhes foi atribuído à nascença. O espetáculo de Drag consiste numa performance em que o indivíduo que atua "brinca" com o conceito de género, seja vestindo-se e maquilhando-se de forma a tornar-se (ou ser) de um género que não corresponde ao seu, seja exagerando características convencionadas socialmente e atribuídas a um certo género, ou apresentando diversas formas de expressão distintas, tendo assim um cariz humorístico. A discussão referente ao Drag, muitas vezes iniciada de forma política reacionária, trata frequentemente a ideia da "destruição do feminino e masculino" como um perigo civilizacional. O que é aqui implícito, mas jamais explicitado, é que as categorias de género (e não sexo) feminino e masculino não poderiam ser destruídas se não fossem intrinsecamente arbitrárias. Todos nós somos artistas de Drag, quer saibamos isso ou não.

 Simone Beauvoir afirma que ninguém nasce mulher, mas que se torna em mulher, o que inspirou diversas discussões relativas à existência do conceito de mulher, e como o definimos. Surgem a partir daqui diversas interpretações, nomeadamente, a interpretação de que é a opressão misógina que a cria, interpretação esta problemática visto que implica que a opressão será sempre inerente à feminidade. Ainda assim, uma análise feminista do lugar do homem enquanto estado humano da sociedade interroga também a existência de tal papel privilegiado de existência. Há uma razão porque existe menos visibilidade de Drag Kings comparado com o hiperfoco que circunda as Drag Queens: a masculinidade não é convencionada como forma de género como é a feminidade, muito menos vista como suscetível a ser subvertida, ou "corrompida", como diriam alguns reacionários. Num paradigma generificado, existir é nossa mais longa performance, que nos acompanha desde o momento em que nos é descoberto o sexo, e que permanece até outros, mais tarde, fazerem fantasmas de nós que permanecerão para sempre do mesmo nome. Disse uma pessoa transgénero, um dia: "Não quero que chorem no meu funeral por uma pessoa que eu não sou".

 Ferdinand Saussure trabalhou a relação arbitrária entre o signo e o significado, Beauvoir expandiu, implicitamente, essa definição, e Michel Foucault enunciou que o poder mantém tudo isto a funcionar. Assim sendo, todos nós podemos (e devemos) questionar de forma curiosa e atenta a maneira como, sem nós percebermos, manifestamos este poder. Aprender a ver, a sentir, a questionar, são tarefas que levamos toda a vida.