segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Olhar Internalizado: Das Selfies às Redes Sociais como Panóptico Digital

 O panóptico de Bentham, descrito por Michel Foulcault em "Vigiar e Punir", era uma arquitetura prisional perfeita: uma torre central de onde o vigilante poderia observar todos os prisioneiros, sem ser visto. O génial da estrutura não estava na vigilância constante, mas na possibilidade dela, o prisioneira sem nunca saber se esta a ser observado, internalizava o olhar do poder e passava a vigiar-se a si memso.

Hoje, não precisamos de torres de pedra. O panóptico é digital, distribuído por milhões de ecrãs. Nas redes sociais, Instagram, Tik Tok , Facebook, o olhar é omnipresente mas descentralizado. Publicamos "selfies" "stories", "reels", sabendo que centenas de olhos nos observam; amigos, seguidores, algoritmos, marcas. Mas o mais foucaultiano é como internalizamos esse olhar: editamos a foto até à "perfeição", escolhemos o filtro que nos torna mais " normais" , mais magros, mais simétricos, mais altos, mais baixos, apagamos o que não encaixa na imagem ideal.

O olhar não é inocente, ele disciplina. A selfie não é apenas auto-retrato, é performance de normalidade. Produzimoes visualmente a versão de nós que o poder, heteronormativo, consumista, racializado, aprova. O corpo feminino, em particular, é hipervigilado, curvas certas, pele imaculada, pose sensual mas não "excessiva". Inspirado em Beauvoir e no " segundo sexo", vemos como as mulheres são educadas para serem olhadas, para se tornarem objeto do olhar masculino, e agora do olhar coletivo das redes sociais.

Mas há resistência? Alguns criticos subvertem, corpos grandes, "queer", racializados ocupam o espaço, desafiam a "norma". Ou o "no filter" como ato político. Ainda assim, o algoritmo pune: manos visibilidade para o que foge ao padrão endàvel.

No final, como Foucault alertava, o poder disciplinar não reprime apenas, produz sujeitos. Produz-nos como consumidores de imagens, produtos de nós mesmo como mercadorias, Marx e o Fetichismo da mercadoria visual. O olhar digital não nos liberta: normaliza-nos.