domingo, 28 de dezembro de 2025

O Panóptico Contemporâneo

Vivemos num tempo em que ver e ser visto deixou de ser apenas uma interação humana simples para se tornar um princípio estrutural da vida social. A vigilância já não se impõe somente por fora, ela infiltra-se no nosso quotidiano e hábitos, nas plataformas digitais e na forma como pensamos a nossa própria existência. Basta entrarmos nos transportes com câmaras visíveis, passar por um edifício com controle de acessos ou trabalhar numa empresa que recorre a softwares para monitorizar a produtividade, para perceber que o panoptismo de Michel Foucault (1926-1984), como apresentado na sua obra Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (1975), e a sua materialização em estruturas arquitetónicas (como as idealizadas por Jeremy Bentham) deixou de ser uma abstração teórica e passou a descrever o tempo presente. Não precisamos de saber quem nos observa, quando observa e com que finalidade, pois acreditar que estamos a ser observados é o suficiente para ajustarmos o comportamento: falar mais baixo, evitar certos gestos, cumprir regras. Normalizou-se a vigilância, tornando assim o olhar em poder, precisamente porque é invisível e constante.

Mas esse olhar não é neutro, nem apenas institucional. Como nos lembra Jean-Paul Sartre (1905-1980), em O Ser e o Nada (1943), “ser visto é ser fixado”, tornado objeto. Na sociedade da vigilância, esse processo intensifica-se ao sermos simultaneamente sujeitos que observam e objetos observados, e o paradoxo instala-se quando começamos a desejar esse olhar. Um exemplo claro surge nas redes sociais: ao publicar uma fotografia ou um comentário, antecipamos o olhar do outro traduzido em likes, comentários e partilhas, e moldamos a nossa imagem em função dessa expectativa. Torna-se encenada tal exposição voluntária, e acabamos a alimentar a engrenagem panóptica. O controle deixa de ser somente repressivo e passa também a ser sedutor.

É aqui que emerge a tensão descrita por Georges Bataille (1897-1962) entre interdito e transgressão, apresentada no O Erotismo (1957). Segundo ele, toda a vigilância cria limites, e todo o limite gera desejo. Mas quanto mais controlado é o corpo, a palavra, o tempo e o comportamento, mais a transgressão se torna uma força latente. Pensemos, por exemplo, nos trabalhadores que usam pequenos intervalos “invisíveis” para descansar, naqueles que transformam espaços urbanos vigiados em locais de encontros efémeros (como a prática do cruising), ou nos utilizadores que recorrem a perfis alternativos para dizer aquilo que o perfil principal não permite. A transgressão contemporânea raramente é frontal, manifesta-se em gestos mínimos e na criação de zonas de sombra dentro de um sistema que exige transparência total.

O problema é que o próprio sistema aprendeu a capturar a transgressão, e aquilo que deveria romper com o interdito é frequentemente absorvido, estetizado e devolvido como uma mercadoria ou uma performance: a estética underground converte-se em tendência de mercado, a crítica transforma-se em conteúdo, e a intimidade ganha monetização. A vigilância dos tempos em que vivemos já não se limita a punir, ela normaliza, integra e neutraliza. O Panóptico já não precisa de muros porque opera através do desejo de visibilidade, e o olhar do outro, de que falava Sartre, torna-se omnipresente, difuso e impessoal.  Não é apenas a figura concreta do outro concreto que nos observa, mas um conjunto de métricas: visualizações, avaliações, pontuações, rankings.

Bataille ajuda-nos a perceber que a transgressão não elimina o interdito, revela-o, expondo também os mecanismos de poder que o sustentam. Assim, para manter o seu potencial, o próprio transgressor tem de se deslocar. Não se trata apenas de ser visto a desafiar a norma, mas de questionar a própria lógica do olhar. Como tal, a fuga pode surgir na recusa da hiperexposição, na escolha consciente do anonimato, no desligar temporário, no uso de espaços não monitorizados ou na criação artística que resiste à lógica da utilidade e da transparência. 

Entre o Panóptico que nos observa, o olhar que nos fixa e o desejo que nos empurra para além do limite, desenha-se o campo de batalha da contemporaneidade. A questão que impera já não é apenas quem vigia, mas como vamos viver sob vigilância: Seremos nós capazes de criar espaços onde ver não signifique dominar, e ser visto não implique abdicar da liberdade?