segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Perceção

O que vemos, muda conforme o ambiente, as pessoas, e especialmente a nossa disposição e predisposição para o ver. Não importa o quão reconhecida e presenteada possa ser uma obra de arte, ela pode trazer-nos desconforto ou tristeza dependendo do estado emocional em que nos encontramos.

Isto não é meramente afirmar que "cada um vê à sua maneira". Não. A mais mínima diversão emocional influencia a nossa percepção sobre o que quer que seja que observemos.


Imagina estes cenários em que, em ambos, visualizas a obra de arte no seu local “predefinido”: Visitas o museu de Arte Antiga em Lisboa, e observas a Custódia de Belém.


Cenário 1 - Sentes-te relativamente bem, não pensas nem sentes (conscientemente) muita coisa além das obras de arte que vais observando. A custódia de Belém parece-te um objeto intrínseco e complexo. Podes não conhecer muito da sua história mas, do que entendes, gostas do que te chega aos olhos.


Cenário 2 - Ao subir as escadas da entrada do Museu, tropeçaste ligeiramente num dos degraus. Não aconteceu nada de grave mas sentes uma ligeira dor num dedo do pé, causada pelo impacto da unha na carne. Enquanto caminhas e sobes as escadas, a dor persiste. E, agora que observas a Custódia de Belém, a sua verticalidade, detalhe minucioso, cor berrante amarela dourada e membros finos, pontiagudos e cortantes, lembram-te da dor que sentes no dedo, desconfortam-te, e rapidamente desvias o olhar deste objeto e passas para o próximo.


Apesar de parecer um exemplo demasiadamente específico e imbuído de assunções (acerca de como te sentirias em qualquer uma destas situações), não deixa de retratar quão facilmente a nossa perceção pode mudar à mínima mudança de paradigma, pois nem é dos cenários mais díspares, já que em ambos foste de livre e espontânea vontade visitar o museu. 

Enquanto, nestes cenários que inventei, a mudança de perceção pode parecer relativamente irrelevante para a tua vida e a dos outros (o que em si já é questionável), se pensarmos num cenário mundano, regular e global, talvez a encaremos com mais consideração.

Quando, nas escolas, os estudantes não querem nem gostam de ler os livros pertencentes ao plano de estudos, isto não se deve apenas ao facto de não gostarem de ler, mas principalmente à obrigação que têm de o fazer.

Não importa o quão interessados estejamos em algum tema, tudo o que passa de livre vontade, a obrigação, perde, pelo menos (para quem quiser afirmar que não se sente desta forma), um pouco do seu brilho.

A própria evolução da palavra “escola”  demonstra este fator na sua plenitude, (“A escola (do grego scholé, através do termo latino schola) tinha como significado, “discussão ou conferência”, mas também “folga ou ócio”. Este último significado, no caso, seria um tempo ocioso onde era possível ter uma conversa interessante e educativa.”, já que, “(...)para os gregos, a aprendizagem esteve relacionada à ideia de entretenimento e interesse individual, distanciando-se das obrigações e do trabalho”.).


Com isto, não quero afirmar que a escola e os estudos não devam ser obrigatórios. Cabe ao estudante, trabalhador, ou estudante-trabalhador, perceber que a sua aversão à leitura, visualização, escrita, audição, de um certo material informativo, não está necessariamente, nem fundamentalmente relacionada com o material em si, mas com o contexto em que este lhe foi apresentado. (Apesar da impossibilidade de explicar estes conceitos a crianças de seis anos).

Ainda assim, isto não é uma solução. Seria necessária muita força de vontade para começarmos a gostar das nossas obrigações. Mas ter a perceção deste fator, é o primeiro passo de, provavelmente, muitos.