Há algumas semanas estive num café em Marrocos, sentada a observar a rua. O movimento era caótico, cheio de cores, sons dos carros a apitar, à chamada para a reza e cheiros. Era tudo muito diferente de Portugal. Mas percebi que estava a olhar para o lugar através de imagens e ideias que já trazia comigo. Os mercados, as roupas, os gestos, parecia que procurava confirmar uma ideia de “exótico”, enquanto momentos mais simples passavam despercebidos.
Ao pensar no que discutimos em aula, percebi que essa sensação está ligada ao Orientalismo. A teoria mostra que o olhar ocidental muitas vezes constrói o outro como diferente, como algo a ser observado, e não realmente conhecido. É uma forma de diferença que se cria na própria visão, e não só no que está diante de nós. Enquanto eu olhava para a rua, senti exatamente isso, a atenção ia para o que encaixava na minha ideia pré-concebida, criando uma distância entre mim e as pessoas à minha volta.
Esse momento fez-me refletir sobre como o olhar não é neutro. Mesmo sem perceber, ele transporta expectativas e histórias que moldam o que vemos. No café, entre o ruído da rua e o cheiro do chá, comecei a perceber que olhar de forma consciente significa aceitar o que não encaixa, perceber o outro como pessoa e não apenas como imagem.
No fim, Marrocos deixou de ser apenas um conjunto de imagens exóticas. Tornou-se algo real, e o mais interessante foi perceber que, ao olhar de forma mais atenta, estava a aprender sobre o lugar mas também sobre o meu próprio olhar.