sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A Indústria (Contra) Cultural

Sempre reconheci a cultura como aquilo que molda e identifica um território e quem nele vive, e que sem ela não há nenhum sistema robusto, ou que subsista simplesmente. No entanto, aquilo a que hoje assistimos aproxima-se cada vez mais do que Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor W. Adorno (1903-1969) definiram como Indústria Cultural: uma lógica em que a cultura deixa de ser um espaço de criação, crítica e identidade coletiva para se tornar um produto domesticado, rentável e facilmente consumível. Contudo, para que a cultura exista de forma viva e plural, necessita de valorização e manutenção por parte de quem tem esse dever. Mas a verdade é que nada disso está a ser feito.

O tão autoproclamado centro cultural que é Lisboa, aos poucos, vai-se deteriorando, incapaz de olhar para si e reconhecer que a cultura que sempre lhe deu apoio e estatuto é a mesma que agora é descartada quando não se enquadra numa lógica de mercado. As políticas que afrontam a existência de espaços culturais, através do policiamento constante, da precariedade e das cartas de despejo, são reflexo de um país que já não reconhece na cultura um pilar da democracia. Tal como na Indústria Cultural, a criação independente torna-se incómoda, pois não se adapta facilmente aos ideais de controlo, da previsibilidade e do lucro.

Em vez de proteger espaços culturais e coletividades, a cidade prefere uma cultura inofensiva, transformada em souvenir, reduzida a porta-chaves e unicórnios, tal como descrevem Horkheimer e Adorno quando alertam para a padronização e o esvaziamento do conteúdo cultural sob o domínio da indústria. E uma cidade que não valoriza a sua cultura nem respeita quem a constrói diariamente, muitas vezes sem recursos, é uma cidade que abdica da sua função social e que não pode estar ao serviço do povo e dos seus interesses. Ao submeter a cultura à rentabilidade e ao turismo, despe-se de identidade, diversidade e liberdade, substituindo a experiência cultural autêntica por uma imagem vendível e superficial.

Assim, altera-se a malha urbana e lamentam-se os encerramentos, mas continua-se a lutar, porque a cultura e as artes foram, e continuam a ser, motores de transformação e resistência. Mesmo quando empurradas para a margem, recusam-se a ser apenas mais um produto numa prateleira.

Nesta época de festividades e de rescaldo do ano que termina, desejo mais do que moedas (que não passam de esmolas) e uma cidade e país verdadeiramente comprometidos com a preservação de todas as associações, coletividades e espaços que insistem em manter a cultura viva, crítica e saudável, fora da lógica redutora da Indústria Cultural.