sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Ciúme Retroativo

    Nos últimos tempos, percebi um tipo específico de ciúme que não se dirige a uma situação presente, mas ao passado de alguém com quem me relaciono. Não é medo de traição, nem de algo que esteja a acontecer agora. Era o incómodo constante com histórias anteriores: ex-relacionamentos, experiências sexuais, comparações que eu faço mentalmente sem querer. Pensamentos que surgem mesmo sem estímulo direto, como se o passado do outro estivesse sempre a pedir explicação. Depois de uma pesquisa rápida, descobri que chamam de “ciúme retroativo” a este sentimento. Um ciúme que não reage ao que acontece, mas ao que já aconteceu.

    Percebi um amontoar de negatividade dentro de mim que não vinha de uma situação concreta, mas de pensamentos insistentes sobre esse passado. Não existem mensagens suspeitas, encontros escondidos ou ameaças reais no presente. Mas, ainda assim, o desconforto estava ali: imagens mentais, perguntas que eu não faço em voz alta, uma sensação de vigilância constante. 

    É intrigante como este ciúme não se dirige a uma pessoa específica, mas a um conjunto de narrativas sobre quem esta pessoa “foi”, sobre o que fez, com quem esteve. Um passado que, teoricamente, não me deveria pertencer mas que, mesmo assim, parece exigir controlo, interpretação e julgamento. Foi aqui que comecei a pensar com Michel Foucault.

    Foucault ajuda-nos a entender que o poder não atua apenas por meio de proibições explícitas, mas através de discursos que produzem verdades sobre os sujeitos. No campo das relações afetivas, discursos sobre monogamia, exclusividade e transparência total criam a ideia de que o passado sexual deve ser conhecido, confessado e avaliado. O passado transforma-se, assim, em algo administrável.

    Tal como em “História da Sexualidade", não é o silêncio que governa, mas o excesso de fala. Falar do passado vira quase uma obrigação moral. Confessar, explicar, comparar. Neste processo, percebi como eu mesma me tornava vigilante e, ao mesmo tempo, prisioneira desta vigilância. O poder já não vinha de fora: ele operava dentro.

    O corpo reage a isto. Ansiedade, tensão, dificuldade de estar plenamente presente. Não porque algo está a acontecer, mas porque o discurso já tinha produzido os seus efeitos. Foucault veria isto como uma tecnologia de poder que fabrica sujeitos que se autogovernam, que se regulam emocionalmente a partir de normas invisíveis.

    Viver esta experiência fez-me perceber que o ciúme retroativo não é apenas um problema individual ou psicológico. Ele é também um efeito de formas históricas de pensar o amor, o sexo e a verdade. Reconhecer isso não elimina o sentimento, mas desloca o olhar. Talvez a resistência comece justamente em recusar a ideia de que todo o passado precisa ser decifrado, narrado e controlado para que uma relação seja legítima.