terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Quem Eu Quero Ser, ou Quem Querem Que Eu Seja?

Há dias em que me pergunto porque é que estamos aqui. Não num sentido espiritual ou religioso, mas num sentido muito mais prático, e talvez por isso mesmo mais inquietante. Porque é que esta é a vida que nos foi entregue? Porque é que o percurso parece traçado antes mesmo de termos consciência de nós próprios? Estudar, trabalhar, produzir, consumir, descansar o mínimo possível e repetir. Como se a existência tivesse sido reduzida a um mecanismo funcional, onde viver serve apenas para garantir que continuamos a sobreviver.

Desde cedo, a ideia de propósito foi-me apresentada de forma muito concreta: ser útil. Ter um futuro. “Ser alguém”. Mas esse alguém surge quase sempre associado a uma profissão, a uma estabilidade económica, a uma capacidade de gerar valor. Raramente nos perguntam quem queremos ser para além disso. Raramente somos incentivados a imaginar uma vida que não esteja organizada em função do trabalho.

Cresci rodeado por uma pressão constante, sobretudo em torno das áreas artísticas e dos preconceitos que carregam sobre o futuro. A ideia de escolher algo que não garantisse segurança financeira era vista quase como irresponsabilidade. Isso sempre me deixou inquieto. Porque é que é suposto trabalhar para me tornar alguém estável aos olhos dos outros, se isso significar ser profundamente miserável por dentro?

Trabalhamos para sobreviver e sobrevivemos para continuar a trabalhar. E quando surgem o cansaço, a ansiedade ou o vazio, a falha é sempre atribuída ao indivíduo, nunca ao sistema que exige tudo e devolve tão pouco.

Este verão comecei a trabalhar, e agora sou trabalhador-estudante. Ainda assim, a vida académica não se torna mais leve. Além de não haver regalias quase nenhumas academicamente, ainda tem que se trabalhar até à meia-noite, acordar de madrugada, ter aulas, cumprir prazos, desenvolver projetos, pagar contas. Às vezes pergunto-me se foi realmente esta a vida que construímos enquanto sociedade. Se este é o resultado final da nossa ideia de progresso.

Há algo de profundamente estranho em perceber que a maior parte da nossa energia é dedicada a sustentar uma engrenagem que raramente questionamos. A rotina torna-se norma. O esforço constante transforma-se em virtude. O descanso passa a ser quase um privilégio. Não porque a vida precise de ser assim, mas porque fomos educados a aceitá-la dessa forma.

Pergunto-me muitas vezes se este é mesmo o propósito ou apenas o único que nos foi apresentado. Se a vida se resume a cumprir funções, ou se fomos treinados a acreditar que não existem alternativas. Provavelmente o mais violento neste processo não seja o trabalho em si, mas a ideia de que não há outro caminho possível.

É claro que tudo isto se cruza com fatores maiores, políticas, desigualdades sociais, decisões governamentais. Mas são temas constantemente discutidos que, no fim do dia, parecem não alterar a estrutura de fundo. Reconhecem-se os problemas, mas a lógica mantém-se. Como se a própria natureza do sistema fosse mais forte do que qualquer tentativa de mudança.

No meio disto tudo, pensar torna-se quase um gesto subversivo. Questionar o ritmo, o sentido, a direção. Perguntar “porquê?” quando tudo à nossa volta responde com “porque sempre foi assim”. Não existe uma resposta definitiva para o sentido da vida, mas talvez exista valor em recusar uma resposta imposta.

E se existir algum propósito, talvez ele comece exatamente aí: no momento em que paramos, olhamos para esta estrutura e nos perguntamos se queremos realmente viver apenas para sobreviver. Mesmo sabendo que, muitas vezes, essa pergunta parece não levar a lado nenhum. Porque, no fim, ou estamos dentro do sistema ou contra ele, e estar contra ele é, quase sempre, impossível.

Estou fisicamente esgotado, mas ainda não completamente esvaziado por dentro. Principalmente porque sou um otimista. Continuo a acreditar que algo pode mudar, que escolhas diferentes podem ser feitas. E que, eventualmente, essas escolhas vão acontecer.